O banco disse que sim. Aprovado. A prestação cabe dentro dos limites que a lei permite. Mas depois de pagar a prestação, o condomínio, a creche, o supermercado, o carro e a luz, o que sobra?

Essa é a pergunta que o banco não faz. E que tu tens de fazer antes de assinar.

O que é a taxa de esforço

É a percentagem do teu rendimento líquido que vai para pagar prestações de crédito. Todos os créditos contam: habitação, carro, pessoal, cartão. Se quiseres perceber também quanto rendimento precisas de ter para comprar casa, lê o nosso guia sobre rendimento mínimo para comprar casa em 2026.

Imagina que ganhas 1.500€ líquidos por mês. Se a prestação da casa for 450€, a taxa de esforço é 30%.

A conta simples

Taxa de esforço = prestações totais ÷ rendimento líquido

Exemplo: 450€ de prestação ÷ 1.500€ de salário = 30% de taxa de esforço

Se também pagas 200€ de carro, o cálculo é: (450€ + 200€) ÷ 1.500€ = 43% de taxa de esforço

O Banco de Portugal recomenda o limite de 50%. Na prática, os bancos preferem não passar dos 35-40%. Abaixo dos 30% tens um perfil de risco baixo e negocias com vantagem.

O que o banco vê e o que tu vives

O banco analisa o teu rendimento e verifica se a prestação cabe dentro dos limites legais. Não conta com o resto da tua vida financeira: creche, supermercado, carro, luz, ou qualquer outra despesa fixa que tenhas.

O que ninguém te mostra: um banco pode aprovar-te com 35% de taxa de esforço. Mas depois de pagares todos os custos fixos de uma família, ficares com 300-400€ por mês é muito comum. E aí qualquer imprevisto, desde um electrodoméstico avariado até uma consulta inesperada, converte-se numa crise.

O que o banco calcula

Rendimento: 2.800€

Prestação (35%)980€
Resto1.820€
ConclusãoAprovado ✓

O banco vê 1.820€ disponíveis e conclui que a prestação é suportável. Não considera creche, supermercado, carro nem nenhuma outra despesa fixa da família.

O que tu vives

Rendimento: 2.800€

Prestação980€
Creche (comparticipada)150€
Supermercado480€
Alimentação fora80€
Carro + combustível300€
Água, luz, gás, internet, tel.190€
Condomínio60€
Seguros (vida + habitação)55€
Saúde (farmácia, consultas)60€
Lazer e imprevistos100€
Sobra por mês345€

345€ para roupa, poupança, imprevistos e tudo o que apareça. Para um casal com um filho, é muito pouco. Uma avaria no carro ou uma visita ao dentista já desequilibra o mês.

Aprovado vs. confortável: qual é a diferença real?

Taxa de esforço O que significa na prática Nível
Abaixo de 28%Tens margem para imprevistos, poupança e vidaConfortável
28% a 33%Razoável, mas sem grande almofada. Evita outros créditosAtenção
33% a 40%O banco aprova, mas qualquer imprevisto dóiArriscado
Acima de 40%Risco elevado. Qualquer alteração ao rendimento ou despesas é difícil de absorverPerigoso

A tua família nos números: três exemplos reais

Escolhe o teu perfil e o cenário para veres o que sobra ao fim do mês.

Nota: estimativas médias para Portugal em 2026. A creche usa um valor reduzido por via do programa Creche Feliz (gratuita para crianças nascidas após set. 2021). Fora do programa pode custar 350€ a 550€/mês. O objectivo é mostrar a ordem de grandeza, não ser exacto.

As despesas familiares só tu conheces. O simulador trata da parte do banco: calcula a prestação, a taxa de esforço sobre o teu rendimento e o que podes pedir. É o primeiro passo.

Simula a tua taxa real

O que acontece se a Euribor subir?

A maioria dos créditos habitação em Portugal é a taxa variável, indexada à Euribor, o que significa que a tua prestação pode subir sem que faças nada de errado. Se ainda estás a ponderar o momento certo, lê a nossa análise sobre comprar casa agora ou esperar.

Por isso o Banco de Portugal recomenda um stress test: os bancos verificam se consegues pagar com a taxa actual acrescida de 1,5 pontos percentuais. É uma protecção, mas feita com a tua situação de hoje, sem contar com imprevistos futuros.

O impacto de subidas de Euribor numa prestação a 3,5% e prazo de 35 anos:

Taxa actual 3,5%
↑ 0,5% → 4,0%
↑ 1% → 4,5%
↑ 1,5% → 5,0%

Os valores exactos dependem do prazo restante e do capital em dívida no momento de cada revisão de taxa.

Regra de ouro: se já estás no limite com a taxa actual, uma subida de 1 ponto percentual pode pôr-te em dificuldades reais. Tenta manter sempre pelo menos 10% de margem abaixo do teu limite máximo.

Como melhorar a tua posição antes de ir ao banco

Já sabes o que sobra ao fim do mês. Agora percebe o que o banco aprova, qual a prestação para o imóvel que tens em mente e se a taxa de esforço fica dentro de uma margem segura.

Calcular a minha prestação

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Perguntas frequentes

O que é exactamente a taxa de esforço?

É a percentagem do teu salário líquido que vai para pagar prestações de crédito. Se ganhas 2.000€ e pagas 600€ de prestação, a tua taxa de esforço é 30%. O nome técnico que os bancos usam é DSTI (Debt Service-to-Income ratio), mas é a mesma coisa.

Qual é a diferença entre taxa de esforço de 35% e 25%?

35% é o limite próximo do máximo que o banco pode aprovar. 25% é considerado uma margem confortável. A diferença prática é significativa: num rendimento conjunto de 2.800€, uma taxa de 35% implica uma prestação de 980€, deixando cerca de 345€ de margem após as despesas correntes de uma família com um filho. Com 25% a prestação desce para 700€ e a margem sobe para cerca de 625€, o que permite absorver imprevistos sem entrar em dificuldades.

O banco calcula com o salário bruto ou líquido?

Com o salário líquido, ou seja, o que recebes na conta. Atenção: o banco usa o líquido fiscal declarado, que pode ser ligeiramente diferente do que efectivamente recebes se tiveres subsídios variáveis, horas extra ou prémios que não sejam fixos e regulares.

Posso pedir o máximo que o banco aprova?

Podes, mas é arriscado. O banco aprova com base numa fotografia de hoje: o teu salário de hoje, as tuas despesas declaradas de hoje. Não conta com o que muda: filhos, doenças, perda de emprego, Euribor mais alta, um carro que avaria. O máximo aprovado é o tecto legal, não o valor ideal para ti.

Dois salários contam a dobrar?

Sim, o banco soma o rendimento líquido de ambos os titulares. Isso aumenta o montante que podem pedir. Mas há um risco que muita gente ignora: se um dos dois perder o emprego, a prestação não baixa. É importante garantir que conseguem suportar o encargo com apenas um salário, pelo menos durante um período de transição.

Qual é a taxa de esforço ideal?

Abaixo dos 28-30% és confortável e tens margem para imprevistos. Entre 30-35% é razoável mas tens de ser disciplinado. Acima dos 35% começas a sentir pressão, especialmente se tiveres filhos, carro, ou qualquer outra despesa fixa relevante.

O banco conta o subsídio de alimentação para calcular o meu rendimento?

Depende do banco e da forma como é pago. Subsídio de alimentação em cartão ou ticket normalmente não é considerado. O que conta com certeza é o salário base e os complementos que sejam fixos e regulares, declarados no recibo de vencimento.

O que é o stress test da Euribor e como me afecta?

Para crédito a taxa variável, o Banco de Portugal recomenda que os bancos verifiquem se consegues pagar mesmo que a Euribor suba 1,5 pontos percentuais acima do valor actual. É uma protecção: se não passares neste teste, o banco não te empresta ao valor pedido. Na prática, reduz ligeiramente o máximo que podes pedir.

E se depois de comprar casa deixar de conseguir pagar?

O primeiro passo é falar com o banco antes de falhar um pagamento. Os bancos têm planos de acompanhamento chamados PARI (Plano de Acção para o Risco de Incumprimento) e preferem sempre renegociar do que executar a hipoteca. Podes pedir uma extensão de prazo, um período de carência ou uma reestruturação. Mas funciona muito melhor se pedires ajuda antes de entrar em incumprimento.

Trabalho a recibos verdes. Como é que o banco calcula o meu rendimento?

O banco faz uma média dos rendimentos que declaraste nas Finanças nos últimos 2 a 3 anos. Rendimentos irregulares ou recentes contam menos. Se és trabalhador independente há menos de dois anos, alguns bancos podem nem aceitar o crédito, ou aplicar um desconto significativo ao rendimento considerado. Leva as declarações de IRS dos últimos dois anos para qualquer reunião com o banco.