Os preços das casas estão em máximos históricos, a Euribor disparou com a guerra no Irão, e quem espera há anos continua a adiar para "o momento certo". Não existe uma resposta universal: existe a tua situação concreta. Aqui tens os dados reais e os argumentos de cada lado.

O que aconteceu aos preços nos últimos 10 anos

Desde 2016 que o mercado imobiliário português não pára de valorizar. O preço mediano por metro quadrado quase triplicou em dez anos, e 2025 foi o pior ano de sempre em termos de aceleração.

830€
Preço/m² em 2016
2.111€
Preço/m² em 2025
+154%
Subida em 10 anos

Fonte: INE, Estatísticas de Preços da Habitação ao Nível Local. Valores nacionais medianos.

Em dez anos, o preço mediano nacional subiu +154%. Quem em 2016 esperou dois anos por uma correcção pagou, em média, 20% mais pela mesma casa. Quem esperou até 2022 pagou o dobro.

A Euribor: o fôlego que parecia garantido já não o é

Depois de anos em terreno negativo, a Euribor disparou em 2022 para cima dos 4% na sequência da guerra na Ucrânia. A partir de 2024, o BCE cortou as taxas e a Euribor estabilizou entre 2,1% e 2,2%. Parecia que o pior tinha ficado para trás.

A 27 de Fevereiro de 2026 iniciou-se o conflito entre os EUA, Israel e o Irão. O choque energético foi imediato: petróleo e gás subiram, a inflação na zona euro acelerou para 2,6% em Março, e os mercados passaram a antecipar subidas das taxas do BCE. A Euribor reagiu de forma violenta.

Em três semanas, a Euribor a 12M subiu de 2,227% para perto de 2,93%, o maior salto desde Outubro de 2022. A 6M passou de ~2,13% para ~2,30%. A 3M foi a menos afectada, com uma subida de apenas 0,08 pontos percentuais.

Impacto prático: num crédito de 200.000€ a 30 anos com spread de 1%, a subida de 0,7 pp na Euribor 12M representa mais cerca de 75 a 80€ por mês. Em Abril, a média a 12 meses rondava 2,47%, com os mercados a antecipar duas a três subidas do BCE até ao final do ano.

Os argumentos para comprar agora

A favor de comprar agora

  • Preços continuam a subir. +17,7% em 2025. Cada ano de espera pode custar mais do que a prestação extra que tentavas evitar.
  • Garantia Pública termina em Dezembro 2026. Permite financiar 100% sem entrada de 20% em imóveis até 450.000€. Não é certo que seja renovada.
  • IMT Jovem disponível. Se tens menos de 35 anos, podes poupar vários milhares de euros na escritura. O benefício existe agora.
  • A renda que pagas hoje não volta. Cada mês de arrendamento é capital que não acumulas no teu activo.
  • Spread ainda negociável. Apesar da Euribor, os bancos continuam com apetite para crédito habitação e os spreads mantêm-se competitivos.

A favor de esperar

  • Preços em máximos históricos. Comprar num pico de mercado significa menor margem de valorização futura e maior risco em caso de correcção.
  • Taxa de esforço elevada. Com preços altos e Euribor a subir, muitas famílias estão no limite do que os bancos aceitam. Forçar a compra neste ponto é arriscado.
  • Poupança insuficiente. Se não tens os 14 a 16% mínimos de capital próprio para a entrada e custos, esperar para reforçar faz sentido financeiro.
  • Instabilidade profissional. Um crédito a 30 anos exige estabilidade de rendimento. Se há incerteza no emprego, o momento pode não ser o certo.

Já sabes os argumentos de cada lado. Falta perceber se os números fecham no teu caso concreto.

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O IMT Jovem e a Garantia Pública: dois argumentos com prazo

Se tens menos de 35 anos, dois apoios públicos têm impacto directo no custo de comprar em 2026. O IMT Jovem isenta de IMT e Imposto do Selo da compra até 330.539€ (isenção total) e aplica isenção parcial até 660.982€. Numa casa de 250.000€ podes poupar 10.000 a 12.000€ logo na escritura. Podes ver como funciona e quanto poupas aqui. A Garantia Pública do Estado permite financiar até 100% em imóveis até 450.000€ sem entrada de 20%, mas termina a 31 de Dezembro de 2026 e não está disponível em todos os bancos.

Então, o que deves fazer?

A decisão não depende do mercado. Depende de três variáveis da tua situação:

As três perguntas que importam

  • 1 A tua taxa de esforço fecha? A maioria dos bancos exige que a prestação não ultrapasse 33 a 35% do teu rendimento líquido. Se a prestação da casa que queres está perto ou acima desse limite, és o primeiro a ser afectado por qualquer subida de taxa.
  • 2 Tens poupança suficiente? Entrada mínima de 10% mais 5 a 8% para custos de transacção. Numa casa de 200.000€, isso são cerca de 30 a 32 mil euros. Se não tens, esperar para reforçar a poupança é a decisão mais responsável.
  • 3 A tua situação profissional é estável? Um crédito habitação é um compromisso de 25 a 35 anos. Se há incerteza no teu emprego ou rendimento nos próximos dois a três anos, este não é o momento certo independentemente do mercado.

Se as três respostas forem positivas, os dados de 2026 favorecem avançar: os preços continuam a subir, os apoios públicos têm prazo, e esperar não garante condições melhores. Se uma ou mais forem negativas, esperar é a decisão financeiramente correcta, não fraqueza. O que não existe é um mercado perfeito para esperar: em Portugal, quem esperou pagou mais, não menos.

Simula a tua situação concreta: rendimento, valor da casa, prazo e taxa de esforço. O resultado sai em segundos.

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Perguntas frequentes

Não existe consenso entre economistas. Os dados do INE mostram subidas consecutivas há vários anos, incluindo +17,7% em 2025. A escassez de oferta nas grandes cidades, o investimento estrangeiro e o peso do turismo continuam a pressionar os preços em alta. Uma correcção significativa exigiria um choque económico relevante ou um aumento expressivo da oferta, que não está previsto a curto prazo.
Depende da duração e intensidade do conflito. Em Março de 2026, a Euribor a 12 meses subiu cerca de 0,7 pontos percentuais em poucas semanas, chegando perto dos 3%. O impacto directo numa prestação de um crédito de 200.000€ a 30 anos pode ser de 70 a 80€ por mês. Se o conflito se prolongar e o BCE subir as taxas directoras, o impacto pode ser maior. Se se resolver rapidamente, parte da subida pode reverter.
É uma estratégia válida, mas tem riscos. Enquanto esperas pela Euribor descer, os preços das casas podem continuar a subir. Em Portugal, os preços subiram em média muito mais do que o que se poupou com a descida das taxas de juro nos últimos anos. Além disso, a actual incerteza geopolítica torna as previsões de Euribor menos fiáveis do que há seis meses. A decisão deve depender da tua situação financeira concreta, não de previsões de mercado.
Sim. A Garantia Pública, que permite a jovens até 35 anos financiar até 100% do valor da casa em imóveis até 450.000€, está em vigor até 31 de Dezembro de 2026. Não é certo que seja renovada. Se depende deste apoio para viabilizar a compra, o prazo é um factor real a considerar.
Em regra, o banco financia até 90% do valor da casa. Precisas de ter no mínimo 10% de entrada mais 5 a 8% para cobrir os custos de transacção: IMT, Imposto do Selo da compra, Imposto do Selo do empréstimo (0,6% do valor financiado, sempre obrigatório mesmo com IMT Jovem), escritura e registo. Para uma casa de 200.000€, conta com cerca de 30.000 a 32.000€ de capital próprio mínimo.
Com a incerteza actual em torno da Euribor, a taxa fixa oferece previsibilidade mas tende a ser mais cara no arranque. A taxa variável pode beneficiar de descidas futuras, mas expõe-te a subidas. A escolha certa depende do teu perfil de risco, do spread que consegues negociar, e de quanto conseguirias absorver se a prestação subir 100 a 150€ por mês. Não existe uma resposta universal.