Os preços das casas estão em máximos históricos, a Euribor disparou com a guerra no Irão, e quem espera há anos continua a adiar para "o momento certo". Não existe uma resposta universal: existe a tua situação concreta. Aqui tens os dados reais e os argumentos de cada lado.
O que aconteceu aos preços nos últimos 10 anos
Os preços das casas em Portugal mais do que duplicaram em dez anos e 2025 foi o ano de maior aceleração desde que há registos. Desde 2016 que o mercado imobiliário português não pára de valorizar. O preço mediano por metro quadrado subiu mais de 150% em dez anos, e 2025 foi o ano em que essa subida mais acelerou.
Fonte: INE, Estatísticas de Preços da Habitação ao Nível Local. Valores nacionais medianos por m². O +17,6% citado no texto refere-se ao IPHab, o índice encadeado do INE, que usa metodologia distinta do preço mediano por m².
Em dez anos, o preço mediano nacional subiu +150%. Quem em 2016 esperou dois anos por uma correcção pagou, em média, 20% mais pela mesma casa. Quem esperou até 2022 pagou o dobro.
A Euribor: o fôlego que parecia garantido já não o é
A Euribor desceu dos 4% para cerca de 2% em 2024, mas voltou a subir em 2026 devido ao conflito no Irão: chegou a 2,57% em Março e ronda os 2,95% a 12 meses em Agosto. Depois de anos em terreno negativo, a Euribor disparou em 2022 para cima dos 4% na sequência da guerra na Ucrânia. A partir de 2024, o BCE cortou as taxas e a Euribor estabilizou entre 2,1% e 2,2%. Parecia que o pior tinha ficado para trás.
A 27 de Fevereiro de 2026 iniciou-se o conflito entre os EUA, Israel e o Irão. O choque energético foi imediato: petróleo e gás subiram, a inflação na zona euro acelerou para 2,6% em Março, e os mercados passaram a antecipar subidas das taxas do BCE. A Euribor reagiu de forma violenta.
Em três semanas, a Euribor a 12M subiu de 2,227% para cerca de 2,57%, o maior salto em três anos. A 6M passou de ~2,13% para ~2,30%. A 3M foi a menos afectada, com uma subida de apenas 0,08 pontos percentuais.
Os argumentos para comprar agora
A favor de comprar agora
- Preços continuam a subir. +17,6% em 2025. Cada ano de espera pode custar mais do que a prestação extra que tentavas evitar.
- Garantia Pública termina em Dezembro 2026. Permite financiar 100%, sem a entrada de 10% que o banco exige, em imóveis até 450 000€. Não é certo que seja renovada.
- IMT Jovem disponível. Se tens 35 anos ou menos, podes poupar vários milhares de euros na escritura. O benefício existe agora.
- A renda que pagas hoje não volta. Cada mês de arrendamento é capital que não acumulas no teu activo.
- Spread ainda negociável. Apesar da Euribor, os bancos continuam com apetite para crédito habitação e os spreads mantêm-se competitivos. Se já tens crédito e o teu spread foi contratado antes de 2022, pode valer a pena avaliar uma transferência.
A favor de esperar
- Preços em máximos históricos. Comprar num pico de mercado significa menor margem de valorização futura e maior risco em caso de correcção.
- O banco empresta menos desde Agosto. A taxa de esforço máxima desceu de 50% para 45% a 1 de Agosto de 2026. Para o mesmo rendimento, o montante aprovado é menor do que era até 31 de Julho. Vê o que mudou.
- Taxa de esforço elevada. Com preços altos e Euribor a subir, muitas famílias estão no limite do que os bancos aceitam. Forçar a compra neste ponto é arriscado.
- Poupança insuficiente. Se não tens os 13 a 16% mínimos de capital próprio para a entrada e custos, esperar para reforçar faz sentido financeiro.
- Instabilidade profissional. Um crédito a 30 anos exige estabilidade de rendimento. Se há incerteza no emprego, o momento pode não ser o certo.
Já sabes os argumentos de cada lado. Falta perceber se os números fecham no teu caso concreto.
Simular gratuitamenteO IMT Jovem e a Garantia Pública: dois argumentos com prazo
Se tens 35 anos ou menos, dois apoios públicos têm impacto directo no custo de comprar em 2026. O IMT Jovem isenta de IMT e Imposto do Selo da compra até 330 539€ (isenção total) e aplica isenção parcial até 660 982€. Numa casa de 250 000€ isso vale cerca de 9 000€ logo na escritura (7 042€ de IMT mais 2 000€ de Imposto do Selo). Podes ver como funciona e quanto poupas aqui. A Garantia Pública do Estado permite financiar até 100% em imóveis até 450 000€, sem a entrada de 10% que o banco exige, mas termina a 31 de Dezembro de 2026 e não está disponível em todos os bancos. Podes ver como funciona e quem tem direito aqui.
Então, o que deves fazer?
A decisão de comprar casa deve depender da tua situação financeira concreta, não das previsões de mercado. Depende de três variáveis. Se já és proprietário e queres mudar sem vender, o cenário é diferente: lê o guia sobre segunda casa sem vender a primeira.
As três perguntas que importam
- 1 A tua taxa de esforço fecha? O tecto do Banco de Portugal é 45%, mas é calculado com a taxa agravada, o que na prática trava a maioria dos dossiers à volta dos 36% a 39% de prestação real. Se a prestação da casa que queres passa de um terço do teu rendimento líquido, és o primeiro a ser afectado por qualquer subida de taxa. Podes calcular a tua taxa de esforço aqui.
- 2 Tens poupança suficiente? Entrada mínima de 10% mais 3 a 6% para custos de transacção. Numa casa de 200 000€, isso são cerca de 27 500€. Se não tens, esperar para reforçar a poupança é a decisão mais responsável.
- 3 A tua situação profissional é estável? Um crédito habitação é um compromisso de 25 a 35 anos. Se há incerteza no teu emprego ou rendimento nos próximos dois a três anos, este não é o momento certo independentemente do mercado.
Se as três respostas forem positivas, os dados de 2026 favorecem avançar: os preços continuam a subir, os apoios públicos têm prazo, e esperar não garante condições melhores. Se uma ou mais forem negativas, esperar é a decisão financeiramente correcta, não fraqueza. O que não existe é um mercado perfeito para esperar: em Portugal, quem esperou pagou mais, não menos.
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