Resposta directa: os bancos em Portugal consideram tipicamente 70% do valor da renda como rendimento na análise do crédito habitação, num intervalo que varia entre 50% e 80% conforme o banco. Para a renda contar, precisas de contrato de arrendamento assinado. Sem contrato, a maioria dos bancos ignora a renda por completo.

Tens casa própria, estás a pensar mudar, mas não queres vender. A ideia é comprar segunda casa sem vender a primeira: arrendas a que tens e compras outra. Em teoria a renda que vais receber ajuda a pagar a nova prestação, e os números parecem fechar. Na prática o banco avalia esta situação de forma diferente, e há mais coisas a considerar. Para simular a tua situação, usa o simulador do Bem Endividado.

O que muda quando pedes crédito para uma segunda casa

A entrada que precisas de ter

Nota sobre os exemplos deste artigo: os números que se seguem assumem o cenário mais comum, o de quem vai viver na casa nova e arrendar a antiga. Nesse caso a casa nova é habitação própria e permanente, entra na tabela de IMT dessa finalidade e o banco pode financiar até 90%. Se a casa nova for para arrendar ou para férias, mudam três coisas ao mesmo tempo: o financiamento máximo desce para 80%, a entrada sobe para 20% e o IMT é calculado pela tabela da habitação secundária, que é mais cara (numa casa de 250 000€ são 8 106€ em vez de 7 042€).

Exemplo: casa nova de €250 000, para habitação própria e permanente

O banco empresta 90% = €225 000. Os restantes €25 000 tens de trazer tu, mais os impostos e despesas da compra por cima.

O que pagasValor
Entrada mínima (10% do valor da casa)€25 000
IMT (habitação própria e permanente, 2026)€7 042
Imposto do Selo da compra (0,8%)~€2 000
Imposto do Selo do empréstimo (0,6% de €225 000)€1 350
Escritura e registo~€1 300
Total a ter disponível antes da escritura~€36 700

Se já és proprietário de uma habitação, não tens direito ao IMT Jovem, independentemente da idade. Lembra também que passas a pagar IMI em dois imóveis.

Três detalhes que muita gente descobre tarde demais

O que aperta no segundo crédito não é o limite de financiamento, é a taxa de esforço: ela passa a incluir as duas prestações. Além disso, a avaliação do banco pode ser inferior ao preço que pagaste. O banco empresta 90% do menor valor entre o preço de compra e a avaliação interna. Se pagares €250 000 por uma casa avaliada em €220 000, o empréstimo máximo é €198 000, não €225 000. Precisas de €52 000 de capitais próprios em vez de €25 000. No mercado actual, isto acontece com frequência.

Vais passar a pagar dois seguros de vida. Cada crédito exige o seu. Para um empréstimo de €225 000, podes esperar pagar €15 a €40/mês a mais, dependendo da idade e da seguradora. Não és obrigado a contratar no banco, vale a pena comparar.

E se o inquilino sair? O banco aprovou contando com a renda, mas se a casa ficar vazia a prestação não para. Antes de avançar, faz esta conta: consegues pagar as duas prestações durante 3 a 6 meses sem renda? Se a resposta for não, o risco é maior do que parece.

Como a renda entra na equação

O banco aceita entre 50% e 80% da renda como rendimento, nunca o valor total do contrato. Imagina que arrendas a primeira casa por €900/mês. O banco não vai somar €900 ao teu salário. Vai aceitar entre €450 e €720 desse valor (50% a 80%), conforme os critérios de cada banco, e este intervalo não é fixo. Os três cenários em baixo mostram como este cálculo muda consoante o perfil e se tens ou não contrato assinado.

Três cenários reais

Mesmo com números que parecem fechar, o banco pode recusar: sem contrato de arrendamento a renda não conta, os critérios são mais apertados no segundo pedido, e o banco testa se consegues pagar se a taxa subir 1,5 pontos. Desde 1 de Agosto de 2026 o tecto recomendado pelo Banco de Portugal é 45%, cinco pontos abaixo do que era.

Casa nova: €250 000 · Empréstimo: €225 000 · Prestação: ~€930/mês · O que muda em cada cenário é o rendimento e a renda recebida.

✓ Aprovação provável

37 %

do rendimento considerado vai para prestações

Salário líquido€3 600/mês
Prestação 1.ª casa€600/mês
Renda recebida (70%)€560/mês
Prestação 2.ª casa€930/mês

⚖ Difícil, com contrato

43 %

do rendimento considerado vai para prestações

Salário líquido€3 000/mês
Prestação 1.ª casa€600/mês
Renda recebida (70%)€560/mês
Prestação 2.ª casa€930/mês

✗ Recusa provável

51 %

do rendimento considerado vai para prestações

Salário líquido€3 000/mês
Prestação 1.ª casa€600/mês
Renda recebidanão contabilizada
Prestação 2.ª casa€930/mês

Pressupostos: taxa 3,5%, prazo 35 anos. O cenário vermelho tem os mesmos dados que o dourado, a única diferença é não ter contrato de arrendamento assinado.

A diferença entre aprovado e recusado pode estar em como o dossier é apresentado. Fala com um especialista gratuitamente.

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O que podes fazer para melhorar a aprovação

Não te esqueças do IRS. A renda que recebes é rendimento tributável em Portugal. O valor a pagar ao Estado depende do que ganhas, de outros rendimentos que tenhas, e da forma como declaras no IRS. Vale a pena fazer as contas com um contabilista antes de fechar os números.

A diferença entre aprovado e recusado pode estar em como o dossier é apresentado. Fala com um especialista gratuitamente.

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Perguntas frequentes

O banco conta a renda da primeira casa para aprovar a segunda?

Sim, mas não a 100%. A maioria dos bancos aceita entre 50% e 80% do valor do contrato. Para que a renda seja considerada, tens de ter contrato assinado.

Qual o máximo que o banco empresta para uma segunda casa?

Depende da finalidade que declaras. Se vais viver na casa nova e arrendar a antiga, ela conta como habitação própria e permanente e o limite recomendado pelo Banco de Portugal é 90%, igual ao da primeira compra. Se for para arrendar ou investir, desce para 80%. Alguns bancos ficam abaixo destes limites quando já tens outro crédito activo.

Posso usar o IMT Jovem na compra de uma segunda casa?

Não. A isenção só se aplica à primeira casa. Se já és proprietário, não tens direito.

O banco exige que eu tenha inquilino antes de aprovar o crédito?

Não é obrigatório, mas ter contrato assinado aumenta muito as hipóteses de aprovação. Sem contrato, o banco ignora a renda na análise.

E se a soma das duas prestações ultrapassar 40% do meu rendimento?

Não é automático. O tecto do Banco de Portugal é 45%, mas incide sobre a prestação com a taxa agravada em 1,5 pontos, e não sobre a que vais pagar. Na prática, uma prestação real acima dos 36% a 39% do rendimento já costuma bater no limite. A renda ajuda a baixar a percentagem, mas o banco só conta uma parte dela. Se não chegar, precisas de mais entrada, prazo mais longo, ou outra pessoa no contrato.

Tenho de ter a primeira casa liquidada para comprar outra?

Não. O banco avalia se consegues pagar as duas prestações com o que ganhas, contando também com a renda que vais receber. Quanto menos deveres na primeira, mais fácil.