Podes comprar casa com 10% de entrada, mas 10% quase nunca chega para ir à escritura. Os 10% são só a parte do preço que o banco não financia. Aos 10% somam-se os impostos e as despesas da compra, e no fim precisas de ter poupado perto de 15% do valor da casa. Para veres o teu caso com números reais, usa o simulador do Bem Endividado.
Afinal, quanto preciso mesmo de ter poupado?
A regra que ouves por todo o lado é esta: o banco financia até 90% e tu pões 10% de entrada para casa. É verdade, mas só conta metade da história. Além da entrada, há impostos e despesas que pagas do teu bolso e que ninguém financia.
Na prática, para uma habitação própria e permanente precisas de ter poupado, em regra, entre 14% e 16% do valor da casa. Os 10% da entrada mais 4% a 6% de custos de transacção.
Os 10% são o mínimo do banco, não o custo total
O Banco de Portugal recomenda que o crédito não ultrapasse 90% do menor valor entre o preço de compra e a avaliação do banco. Daí os 10% mínimos. Para segunda habitação o limite cai para 80%, ou seja, 20% de entrada.
Há aqui uma armadilha que apanha muita gente. Repara na palavra menor. O banco financia 90% do preço de compra ou da avaliação, o que for mais baixo. Se a avaliação do banco vier abaixo do preço que combinaste com o vendedor, a diferença sai toda do teu bolso, por cima da entrada.
⚠ Quando a avaliação fica abaixo do preço
Compras por 250.000€, mas o banco avalia em 235.000€. Financia 90% dos 235.000€, ou seja, 211.500€.
Tens de pôr 38.500€ de capitais próprios, e não 25.000€. São 13.500€ a mais do que a "entrada de 10%", ainda antes dos impostos.
Os custos que se somam à entrada
Estes são os valores que tens de ter em conta, para a mesma casa de 250.000€ em habitação própria e permanente no continente, com um crédito de 225.000€ a mais de 5 anos:
| O que pagas | Valor |
|---|---|
| Entrada (10%) | 25.000€ |
| IMT (habitação própria, 2026) | 7.042€ |
| Imposto do Selo da compra (0,8%) | 2.000€ |
| Imposto do Selo do crédito (0,6%) | 1.350€ |
| Escritura, registos e comissões (estimativa) | ≈ 1.500€ |
| Total a ter poupado | ≈ 36.900€ |
Ou seja, numa casa de 250.000€ não precisas de 25.000€. Precisas de perto de 36.900€, cerca de 15% do preço. Os 10% da entrada tornam-se quase 15% quando somas o resto.
Queres saber quanto precisas de ter poupado para uma casa concreta? Põe o preço e a tua entrada e vê os custos todos.
Simular gratuitamenteComo a entrada mexe no teu spread
Aqui está a parte que muita gente não aproveita. A entrada não serve só para chegar à escritura. Uma entrada maior pode baixar a taxa de juro que o banco te dá.
O spread é a margem que o banco soma à Euribor. Depende do risco da operação, e um dos factores é a fatia da casa que estás a financiar (o rácio entre o empréstimo e o valor do imóvel). Quanto menos financias, menor o risco para o banco, e menor tende a ser o spread que te oferece.
Não há uma tabela oficial de spreads por escalão, e os valores mudam de banco para banco e com o teu perfil. Mas a lógica é consistente: dar 20% ou 30% de entrada, em vez do mínimo, costuma abrir a porta a propostas melhores.
O efeito na prestação: 10%, 20% e 30%
Duas coisas descem a prestação quando dás mais entrada: pedes menos dinheiro e podes conseguir um spread mais baixo. Vamos separar as duas para veres o peso de cada uma, na mesma casa de 250.000€ a 30 anos.
Primeiro, só o efeito de pedir menos, mantendo a mesma taxa (Euribor a 6 meses perto de 2,6% mais um spread de 1%, uma TAN de 3,6%):
Entrada 10% (25.000€)
≈ 1.023€/mês
Empréstimo 225.000€
A prestação mais alta das três.
Entrada 20% (50.000€)
≈ 909€/mês
Empréstimo 200.000€
Menos 114€ por mês só por pedires menos.
Entrada 30% (75.000€)
≈ 796€/mês
Empréstimo 175.000€
Menos 227€ por mês do que com 10%.
Agora junta o segundo efeito. Se a entrada de 30% te baixar o spread em 0,3 pontos (uma TAN de 3,3% em vez de 3,6%), a prestação do empréstimo de 175.000€ desce para cerca de 766€. Entre dar 10% com um spread mais alto e dar 30% com um spread mais baixo, a diferença chega perto de 257€ por mês. Ao longo de 30 anos, são dezenas de milhares de euros.
Esta diferença na prestação não é só uma questão de conforto no fim do mês. Uma prestação mais baixa reduz a tua taxa de esforço, a percentagem do rendimento que o banco vê comprometida com créditos. Em cima do limite, dar mais entrada pode ser o que separa um crédito aprovado de um recusado.
E se não tenho entrada nenhuma?
Sem os 10%, e sem apoios, o banco não avança. A única via para financiar 100% é a Garantia Pública do Estado: jovens até aos 35 anos, inclusive, podem comprar sem entrada, em imóveis até 450.000€, com o Estado a servir de fiador de parte do valor. Está em vigor até 31 de Dezembro de 2026 e não está disponível em todos os bancos.
Mesmo com a garantia, o banco continua a avaliar o teu rendimento e a taxa de esforço. E financiar 100% significa prestações mais altas e, muitas vezes, um spread pior do que se desses entrada.
Quanto poupar, na prática
- 1Parte do preço real: soma 10% de entrada mais 4% a 6% de custos. Numa casa de 250.000€, aponta para perto de 37.000€ se não tiveres IMT Jovem.
- 2Confirma se tens IMT Jovem: se tens 35 anos ou menos e é a primeira casa, cortas o IMT e o Imposto do Selo da compra, e a poupança necessária desce bastante.
- 3Decide o equilíbrio entrada contra folga: mais entrada baixa a prestação e pode baixar o spread, mas guarda sempre uma reserva para imprevistos.
- 4Simula com entradas diferentes: muda a entrada de 10% para 20% ou 30% e compara prestação e custo total. É a forma mais rápida de veres quanto vale cada euro que pões à partida.
Simula a mesma casa com 10%, 20% e 30% de entrada e vê a diferença na prestação e no custo total.
Simular com diferentes entradasAchas que isto pode ajudar alguém?
Perguntas frequentes
Precisas de ter poupado mais do que os 10% de entrada. Numa casa de 250.000€, os 10% são 25.000€, mas somando IMT, Imposto do Selo, escritura e registos chegas perto de 36.900€, ou seja, cerca de 15% do valor. A percentagem desce se fores elegível para o IMT Jovem, que isenta o IMT até 330.539€.
Não. Os 10% são apenas a parte do preço que o banco não financia. O IMT, o Imposto do Selo da compra (0,8%), o Imposto do Selo do crédito (0,6%) e as despesas de escritura e registo são valores adicionais que pagas do teu bolso, normalmente entre 5% e 7% do preço da casa.
Tende a reduzir. O spread é a margem que o banco cobra e depende do risco: quanto menor a fatia financiada (o rácio entre o empréstimo e o valor da casa), menor o risco para o banco e menor tende a ser o spread. Os valores concretos variam de banco para banco e com o teu perfil, por isso compensa comparar propostas.
Em regra não, porque o Banco de Portugal recomenda que o banco financie no máximo 90% do valor da casa em habitação própria e permanente. A excepção é a Garantia Pública do Estado, que permite a jovens até aos 35 anos, inclusive, financiar até 100%, em condições próprias e até ao fim de 2026.
Depende do teu equilíbrio entre poupança e prestação. Dar mais entrada reduz a prestação e pode baixar o spread, mas deixa-te com menos folga para imprevistos. Numa casa de 250.000€ a 30 anos, passar de 10% para 20% de entrada baixa a prestação cerca de 114€ por mês, antes mesmo de contar com um possível spread mais baixo.
Numa habitação própria e permanente no continente, o IMT de uma casa de 250.000€ é de 7.042€ em 2026 (250.000 × 7% menos a parcela a abater de 10.457,96€). Se tiveres 35 anos ou menos e for a primeira casa, o IMT Jovem pode isentar-te por completo deste valor.
Se a avaliação do banco for inferior ao preço de compra, o banco financia 90% do valor mais baixo, a avaliação. A diferença entre o preço e a avaliação sai do teu bolso, somada à entrada. Por exemplo, numa casa de 250.000€ avaliada em 235.000€, precisas de 38.500€ de capitais próprios em vez de 25.000€. Por isso convém não esticar a poupança até ao limite antes de saberes a avaliação.