Desde 1 de Janeiro de 2025, a lei manda publicar todos os meses, no Portal da Justiça, o preço das casas vendidas, sem nomes, por freguesia, concelho e distrito. A 26 de Outubro de 2026, não encontrámos esses dados. Hoje só vês o anúncio: em Lisboa, um T1 anunciado por 314 mil€ vende-se, no valor do meio, por 265 mil€.
Antes de fazeres uma proposta, vê no simulador de crédito quanto o banco te empresta.
O que diz a lei sobre o preço das casas vendidas?
Quando compras uma casa, o negócio fica no registo predial, o registo oficial de quem é dono de cada casa. Desde 1 de Janeiro de 2025, o registo tem de guardar também o preço de cada venda e publicá-lo no Portal da Justiça. A regra entrou com o Orçamento do Estado para 2025.
O que diz o artigo 108.º, n.º 4
«Os dados relativos ao preço de transação dos imóveis são disponibilizados no Portal da Justiça, de forma anonimizada e agregada por freguesia, município e distrito, com atualização mínima mensal.»
Código do Registo Predial, em vigor desde 1 de Janeiro de 2025 (Lei n.º 45-A/2024, artigo 319.º).
Por palavras simples: preços sem nomes, juntos por freguesia, concelho e distrito, actualizados todos os meses. A lei não promete o preço de cada casa. Mesmo cumprida, vais ver valores da tua freguesia, não a casa do vizinho.
A 26 de Outubro de 2026, procurámos estes preços no Portal da Justiça, no site do Instituto dos Registos e do Notariado (que gere o registo predial) e nas notícias. Não os encontrámos. Pode haver trabalho em curso, mas hoje um comprador não consegue usar estes números. Se isso mudar, actualizamos este artigo.
Quanto se pede e quanto se paga? Cinco casas lado a lado
Para cada casa, comparámos três números do mesmo período, Abril a Junho de 2026:
- 1Anúncio: o preço pedido no portal de anúncios idealista.
- 2Venda: o preço que ficou na escritura (o contrato final da compra), segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE).
- 3Banco avaliou: quanto o banco acha que a casa vale. É sobre este valor que decide quanto te empresta.
Todos são medianas: o valor do meio (metade das casas custou mais, metade menos).
T1 de 50 m² em Lisboa
O anúncio fica 49 mil€ acima da venda (mais 19%).
Por m²: anúncio 6 283€, venda 5 299€, banco 4 800€.
T2 de 75 m² no Porto
O anúncio fica 32 mil€ acima da venda (mais 11%).
Por m²: anúncio 4 273€, venda 3 846€, banco 3 332€.
T2 de 75 m² em Faro
O anúncio fica 44 mil€ acima da venda (mais 19%).
Por m²: anúncio 3 742€, venda 3 150€, banco 2 834€.
T2 de 75 m² em Leiria
Aqui é ao contrário: a venda fica 11 mil€ acima do anúncio (mais 8%).
Por m²: anúncio 1 927€, venda 2 073€, banco 1 664€.
T3 de 100 m² em Braga
Aqui é ao contrário: a venda fica 9 mil€ acima do anúncio (mais 4%).
Por m²: anúncio 2 323€, venda 2 417€, banco 2 021€.
Fontes: anúncio, idealista, média de Abril, Maio e Junho de 2026; venda, INE, 2.º trimestre de 2026; banco, INE, avaliações de Abril a Junho de 2026.
Em três das cinco cidades, o anúncio fica bem acima da venda. Em Leiria e em Braga, é ao contrário. E em todas o banco avalia abaixo do preço de venda.
O banco avalia abaixo da venda: o que muda na tua entrada
Isto não quer dizer que quem comprou pagou a mais. As avaliações do INE só contam casas avaliadas em pedidos de crédito, por peritos com regras próprias. São outras casas e outra forma de medir.
Mas mexe com o teu bolso. Pela regra do Banco de Portugal, o banco empresta no máximo 90% do valor mais baixo entre o preço e a avaliação, numa casa para morar. Se a avaliação ficar abaixo do preço, a diferença sai da tua poupança. A excepção é a garantia pública para jovens até 35 anos, que permite financiar até 100% da primeira casa em contratos feitos até 31 de Dezembro de 2026. O Governo diz no Relatório do OE2027 que a quer manter, mas ainda não há diploma.
Exemplo: quando o banco avalia abaixo do preço
Compras por 300 000€ e o banco avalia em 270 000€. O banco empresta no máximo 90% de 270 000€, ou seja, 243 000€.
A entrada passa a ser 57 000€ (19% do preço), em vez de 30 000€.
Sem contar impostos, escritura e outros custos.
Vê com calma quanto precisas de entrada para a casa antes de fazer uma proposta.
Porque é que o preço pedido e o de venda não batem certo?
A diferença entre anúncio e venda não é toda desconto que vais conseguir a negociar. Há várias razões possíveis:
- 1O anúncio é o ponto de partida e o preço final pode ficar abaixo.
- 2Casas com preço alto demais podem ficar mais tempo anunciadas e pesar mais nos anúncios.
- 3Nem todas as casas vendidas passam pelos anúncios.
- 4São alturas diferentes: a escritura pode chegar meses depois de o preço ser combinado.
- 5A área pode ser medida de outra forma no anúncio e nas Finanças.
Cuidado com a média do país. Juntando tudo, o anúncio fica 31% acima da venda (3 202€ contra 2 445€ por m²). Mas nenhum dos 15 concelhos que comparámos chega perto: o mais alto foi Faro, com 19%. Uma explicação provável: segundo a metodologia do idealista, cada zona pesa conforme o número de anúncios que tem, e o INE conta pelas vendas. Compara sempre preços da mesma zona.
Ver os 15 concelhos (preço por m², Abril a Junho de 2026)
| Concelho | Anúncio | Venda |
|---|---|---|
| Lisboa | 6 283€ | 5 299€ |
| Cascais | 6 070€ | 5 200€ |
| Oeiras | 4 797€ | 4 704€ |
| Porto | 4 273€ | 3 846€ |
| Funchal | 3 984€ | 3 636€ |
| Almada | 3 880€ | 3 538€ |
| Amadora | 3 816€ | 3 645€ |
| Matosinhos | 3 761€ | 3 496€ |
| Faro | 3 742€ | 3 150€ |
| Sintra | 3 536€ | 3 333€ |
| Setúbal | 3 161€ | 2 899€ |
| Vila Nova de Gaia | 3 019€ | 2 842€ |
| Coimbra | 2 477€ | 2 401€ |
| Braga | 2 323€ | 2 417€ |
| Leiria | 1 927€ | 2 073€ |
Anúncio: média dos valores de Abril, Maio e Junho de 2026 no idealista (cálculo nosso). Venda: INE, 2.º trimestre de 2026, quadro trimestral por concelho.
Porque não sabes por quanto se vendeu a casa do vizinho (e em Inglaterra sabes)
Os preços reais de venda já existem em Portugal, mas não para ti. O SIR (Sistema de Informação Residencial), da Confidencial Imobiliário, junta dados de mais de 700 empresas do sector desde 2007 e chega ao código postal. Segundo a empresa, os principais bancos usam-no. Não é de acesso livre: é para profissionais.
| Quem | O que vê | Acesso |
|---|---|---|
| Quem compra casa | Preço do anúncio e preço do meio por concelho (INE) | Livre |
| Bancos, mediadores e promotores | Preços reais de venda por zona e por código postal (SIR) | Profissional |
| Estado | O preço de cada escritura | Por publicar |
Fontes: Confidencial Imobiliário (SIR e Micro-SIR), INE e Código do Registo Predial, artigo 108.º.
Daqui nasce uma pergunta: se uma empresa privada já junta preços reais de centenas de empresas, porque é que os preços que a lei manda recolher no registo predial ainda não estão públicos? As duas coisas não são iguais: o SIR recebe dados de quem trabalha no mercado, e o registo predial é um registo oficial, onde publicar exige trabalho técnico e cuidado com os dados pessoais. Por isso, a pergunta útil é: o que foi feito desde 1 de Janeiro de 2025?
Noutros países, qualquer pessoa vê o preço de cada casa vendida, sem nomes:
| País | O que qualquer pessoa vê | Desde |
|---|---|---|
| Inglaterra e País de Gales | Preço, data e morada de cada venda | 1995 |
| Irlanda | Preço, data e morada de cada venda | 2010 |
| França | Preço e data de cada venda dos últimos 5 anos | 2019 |
| Portugal | Preço do meio por concelho (INE) | Lei de 2025, por cumprir |
Fontes: HM Land Registry, Property Price Register e data.gouv.fr. Nenhum publica nomes, e em França é proibido usar os dados para identificar as pessoas.
Se os preços fossem públicos, pagarias menos?
Ninguém sabe ao certo. Os estudos apontam para lados diferentes:
- 1Israel: em 2010, um tribunal obrigou a publicar os preços de todas as vendas. Depois disso, casas parecidas passaram a vender-se a preços mais próximos, e o efeito foi maior onde as pessoas tinham menos estudos e menos rendimento.
- 2Hong Kong: uma lei obrigou a dar mais informação na venda de casas novas antes de estarem construídas. Os preços ficaram mais próximos onde faltava informação sobre a qualidade, mas mais desiguais onde havia poucas vendas para comparar.
- 3Estados Unidos: um preço pedido mais alto tende a puxar o preço de venda para cima. Em Portugal, o anúncio é a única referência que o comprador vê.
Há várias formas de dar mais informação a quem compra, todas com riscos. Publicar o que a lei já prevê pode acrescentar pouco ao INE. Preços por rua ajudam a comparar, mas numa rua com poucas vendas dá para adivinhar a casa. Mostrar cada venda sem nomes, como em França, exige regras apertadas de protecção de dados.
Como saber hoje quanto vale uma casa
- 1Vê o preço do meio do teu concelho. No simulador do preço da casa por concelho escolhes o concelho e a área e vês o preço de venda e a avaliação do banco, com dados do INE. Se preferires a fonte, abre o destaque mais recente das Estatísticas de Preços da Habitação ao nível local, descarrega o Excel e procura o teu concelho no quadro dos últimos 12 meses. Multiplica o valor por m² pela área da casa e compara com o anúncio.
- 2Pede ao mediador as vendas parecidas na zona. Alguns trabalham com bases de dados de preços reais, como o SIR. Pergunta por quanto se venderam, não por quanto estão anunciadas.
- 3Pede a avaliação do banco antes de fechar o negócio. É o número que conta para o empréstimo.
- 4Testa se a prestação cabe no teu orçamento antes de fazer uma proposta.
Para o resto das contas, vê quanto custa comprar casa além do preço e confirma a tua taxa de esforço, ou faz a conta no simulador da taxa de esforço.
Antes de fazer uma proposta, vê quanto o banco te pode emprestar e que prestação vais pagar.
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Perguntas frequentes
Sim. Desde 1 de Janeiro de 2025, o artigo 108.º do Código do Registo Predial manda publicar no Portal da Justiça o preço das casas vendidas, sem nomes, por freguesia, concelho e distrito, pelo menos uma vez por mês. A 26 de Outubro de 2026, não encontrámos esses dados publicados.
Em Portugal, não há nenhum sítio público com o preço de cada casa vendida. O que podes ver é o preço do meio por m² no teu concelho, publicado pelo INE. Dados mais detalhados de preços reais existem em bases de dados privadas, para profissionais.
Não. A certidão mostra quem é o dono e como ficou com a casa (compra, herança ou doação). Se houver empréstimo, mostra o valor máximo que a hipoteca garante, que não é o preço da casa.
Porque medem coisas diferentes. O idealista mede o preço pedido nos anúncios e o INE mede o preço que ficou na escritura. Além disso, no idealista cada zona pesa conforme o número de anúncios, e no INE conforme as vendas.
Não há um número oficial público. A diferença entre anúncio e venda muda muito de concelho para concelho: em Abril a Junho de 2026 foi de cerca de 19% em Lisboa e de 2% em Oeiras, e em Braga e Leiria a venda até ficou acima do anúncio. Pede ao mediador por quanto se venderam casas parecidas na zona.